Setúbal em qualquer tom

Setúbal em qualquer tom

A influência de um céu azul sobre as águas que lhe roubam o tom, costuma prevalecer nas preferências daqueles que viajam. Na maioria das vezes tende-se a achar que a limpidez de um céu despido de nuvens contraria as imperfeições que ocupam as cidades. Contudo, a luz recebida de forma opaca oferece uma capa protectora da beleza intrínseca dos objectos, uma espécie de filtro que conserva em brandura as cores que estes apresentam.

É por isso que, em dias de céu cinzento, Setúbal sabe ser brindado com a graça das cores em desmaio.  A cidade ganha um tom esbatido quando está sob a alçada destes céus que, em vergonha, escondem o sol por detrás das nuvens que com algodão simulado tapam de forma bonita a luz do dia. Num aparente paradoxo, a cidade ganha uma nova vida capaz de caber em molduras que encham uma parede de casa.

Por estar rodeada de bonitas praias, facilmente poderia ser rotulada de cidade de Verão mas nas estações mais frias conhece-se-lhe uma nova candura, feita de imagens de barcos que ancorados na doca, se desabituam de salpicar de tons vivos a paisagem para se aproximarem de uma palidez saudável, amantizando-se das cores suaves das gaivotas e sabendo seduzir como em dias de céu turquesa.

Nos dias em que os barcos, feitos de madeira pintada, sossegam ao sabor de um rio em acalmia, balouçando em ritmo suave numa água feita de espelho; em que as gaivotas, gulosas, aguardam a chegada de peixe quais sentinelas em dedicada vigia; em que o rio ganha um tom sépia que o remete para uma nostalgia conciliadora, Setúbal pede por uma visita.

[Imagens da Doca dos Pescadores]

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