A praça que é du Bocage

A praça que é du Bocage

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, médio na altura, 
Triste de cara, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno.

Devoto incensador de mil deidades,
(Digo de moças mil) num só momento.
Inimigo de hipócritas, e frades.
Eis Bocage, em quem luz algum talento;

Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia, em que se achou cagando ao vento.

Auto-Retrato de Manuel Maria Barbosa du Bocage.

Assim se retrata Bocage, poeta nascido em Setúbal, a 15 de Setembro de 1765, grande representante do neoclassicismo lusitano, e que dá nome à principal praça da sua cidade natal, ponto de encontro de gentes, actividades e festas. Esta praça, foi inicialmente designada por Praça do Sapal, tendo sido erigida, em 1871, a estátua de Bocage tendo este passado a observador atento e fiel depositário da vida apressada dos seus conterrâneos.

Guardo desta praça memórias de infância de grande ternura recordando quando comprava pacotes de milho e passava horas, na relva, a alimentar os pombos que, em bando, me cercavam famintos e afoitos. Apenas a prudência me impelia a afastar, deixando-lhes as sobras até nada restar. Hoje em dia, despida de relva, mas trajada de padrões desenhados pela sua calçada, a Praça do Bocage continua a acolher pombos e um cada vez maior número de pessoas que aproveitam a sua luz para passear ou fazer uma paragem nas inúmeras esplanadas que a enfeitam.

De frente para o Bocage descansa a sua musa, feita de pedra mas de original simbolismo, espreguiçando-se à sombra de plátanos que encobrem o céu. No Verão inveja-se-lhe a sombra que a tapa, no Outono os tons das folhas fazem-nos amar o ocre.

Com o Bocage de olhar atento para quem passa, partilha-se com o poeta a liberdade de nos sentirmos no centro da vida urbana, a meio caminho de qualquer ponto turístico, com o aroma do mar a preencher o olfacto e já a prever-se o verde da Arrábida que se aproxima. Da praça, saem também as ruas da baixa de Setúbal, ruas pedonais repletas de comércio de proximidade, onde lojas antigas de comércio independente coabitam com cadeias de marcas.

Na praça, tocam os sinos da igreja de S. Julião, fundada no século XIII e alvo de diversas reconstruções durante os séculos XVI e XVIII, depois de ter sido danificada pelos terramotos que assolaram Setúbal nestas épocas. Nela pode observar-se dois portões manuelinos e, no seu interior,  painéis de azulejos do século XVIII, mostrando cenas da vida de São Julião. Aos fins-de-semana é palco de muitas celebrações. Em outro quadrante da praça, surgem os Paços do Concelho pintados de roxo, a cor do município, assumindo publicamente a devoção à cidade.

Faça chuva ou faça sol, nesta praça voam aves e conversas, passeiam sons e pessoas, ouvem-se os sinos e as corridas das horas. Aqui, sente-se a cidade goste-se ou não de sentir o seu abraço. Neste local recordam-se memórias daquilo que já existiu, praguejando-se ou elogiando-se consoante o apego ao passado, mas também se projecta o futuro que se quer fazer existir. Não há espaço para o vazio para além daquele que circunda a estátua. Apesar do seu piso escorregadio, a praça força o equilíbrio sustentando uma visão bonita daquilo que Setúbal é (mesmo que alguns jurem que não!).

Como lá chegar: 

Entrando em Setúbal, basta seguir as placas que indicam o centro.

Sugestões do que fazer:

  • Comer as iguarias da cidade quer sejam doces (doce de laranja, tortas de Azeitão, moscatel de Setúbal) ou salgadas (choco frito) nos inúmeros restaurantes da zona;
  • Andar a pé pelas ruas da Baixa e apreciar as decorações que atravessam os espaços entre as casas feitas de diversos materiais;
  • Ir ver uma exposição à Casa da Cultura ou à Casa da Avenida;
  • Aproveitar a feira de antiguidades que acontece na Av. Luisa Todi nos 1º e 3º Sábados de cada mês

Fica por perto e também merece uma visita (a pé):

  • Igreja de Santa Maria da Graça (Sé)- 6min; 550m
  • Casa da Cultura- 2 min; 200m
  • Casa da Avenida- 2 min; 200m
  • Convento de Jesus- 5 min; 550m
  • Miradouro de São Sebastião (7 min; 600m)
  • Coreto (5 min; 500m)

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