Mercado do Livramento – De Setúbal para o mundo

Mercado do Livramento – De Setúbal para o mundo

O Mercado do Livramento (“a Praça” para os setubalenses) já era célebre muito antes de ter sido notícia no USA Today. É verdade que a distinção como um dos mercados de peixe mais famosos do mundo o colocou sob o olhar dos que o desconheciam mas, para os setubalenses, foi apenas uma confirmação do que há muito lhes era óbvio, o reconhecimento da qualidade da sua praça.

Inaugurado em 1876, foi baptizado de Mercado do Livramento por ter sido construído sobre a ribeira com o mesmo nome. Mas o espaço original não resistiu ao ritmo da Revolução Industrial e acabou por ser demolido em 1927 para voltar a ser reedificado três anos depois, no mesmo local.

A praça inunda-me as memórias de quando, em pequena, ia com a minha avó materna a este local emblemático.  Lembro-me de achar graça às bancas cheias de legumes vendidos por senhoras dadas à conversa e que invariavelmente puxavam por esta enquanto a minha avó escolhia as batatas que me daria ao almoço.  Era habitual começar pela fruta e os legumes e terminar na zona do peixe depois de uma incursão pelo pão e pela florista que lhe vendia os pequenos ramos de frésias que iriam encher a sala de um aroma doce. Porém, a visão das bancas de mármore, repletas de peixe e mariscos, numa intensidade  de estímulos visuais e olfactivos, despertava em mim uma ambivalência de sentimentos. Por um lado não gostava, a agudeza do apelo aos sentidos deixava-me aturdida mas, por outro lado, a curiosidade fazia-me atentar na forma como o peixe era amanhado com destreza e como o manejar castiço se revelava na sua forma mais exuberante. No final, ganhava a curiosidade e o deleite de saber que na mala já pesada nas mãos da minha avó, vinham carapaus, lulas ou peixe espada, na altura os meus alimentos de mar preferidos.

Depois, com a massificação dos supermercados e das grandes superfícies, alturas houve em que a praça se tornou meramente uma recordação ancorada à minha infância. O frenesim pelos grandes espaços comerciais, com ofertas diversificadas e com livre serviço tiranizaram as escolhas quanto ao local das compras. Mas, felizmente, tudo tem um ciclo e a este crescimento voraz seguiu-se o reaproximar por um comércio de proximidade, pelos valores do que é mais tradicional e genuíno. Pela graça da redescoberta do acto de comprar pelo prazer de conhecer quem vende.

Hoje, o Mercado do Livramento (a nossa “Praça”!) está mais bonito e diversificado que nunca. As recentes obras de requalificação aumentaram-lhe a luz e a ornamentação, dando-lhe um toque mais moderno e funcional o que, a par da notícia que o notabilizou, o colocaram na agenda turística fazendo parte de qualquer guia dedicado à região.

O seu painel de azulejos, onde estão retratadas paisagens e actividades económicas do concelho, continua a dar nas vistas mas há muito que o interesse deste local se reparte pelos mais variados atributos.  Desde a simpatia dos vendedores, aos produtos biológicos, regionais e nacionais, passando pela qualidade e frescura do peixe ate à variedade de espécies dos mesmos tudo soma numa fórmula perfeita. Os chocos, as sardinhas e os salmonetes destacam-se como embaixadores da cidade mas há muito mais peixe a ornamentar as bancas.  O espadarte, os robalos de mar, os chernes e uma ampla variedade de mariscos são óptimos exemplos das maravilhas que o mar deixa neste mercado.

Por estes motivos, são muitos os turistas que se juntam aos habituais fregueses. Nacionais ou estrangeiros são cada vez mais “os de fora” que vêm visitar (e comprar) neste local que durante muito tempo foi somente dos “da cidade”. Esta crescente procura, porém, não desvirtuou as suas qualidades mantendo-se fiel à genuinidade e tradição não sucumbindo perante tendências de formatos que o afastariam da sua essência.

Pessoalmente, volto sempre que posso a este local, para comigo levar produtos frescos pesados a granel entre sorrisos de simpatia aos quais assiduamente junto um ramo de flores que, consoante a estação, me oferecem diferentes formas e cores que avivam o branco da parede da sala.

Como lá chegar:

Acedendo ao centro de Setúbal fica localizado no número 163 da Avenida Luisa Todi, mesmo em frente à fonte luminosa.

Quando ir:

O mercado encontra-se aberto de terça a domingo das 7h30 às 14h00

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