Setúbal nostálgico – Atravessar marés com recordação

Setúbal nostálgico – Atravessar marés com recordação

Muitas pessoas de Setúbal associarão facilmente uma memória à visualização destas imagens. Eu própria me deparo com recordações nítidas dos tempos em que estes barcos navegavam no Sado e transportavam centenas de pessoas de semblantes animados com a perspectiva de um dia de praia.

Na verdade, perdi a conta das vezes que pisei o chão dos ferry boats durante a minha infância e adolescência. Eram eles que nos faziam chegar a Tróia onde nos esperavam dias repletos de mergulhos e de sol na pele. A travessia para o paraíso era feita dentro destes barcos de linhas rectas, de paredes ferrugentas e com portas que pareciam waffles. A contrastar com o seu aspecto rústico, eram entoadas gargalhadas sem idade enquanto os cabelos dançavam ao vento e as pessoas conversavam entre os carros que, juntinhos, não deixavam que se visse a cor do chão.

Hoje, o “Recordação” e o “Expresso” jazem na Mitrena enchendo a paisagem de uma nostalgia a céu aberto. Muitos se revoltam pelo abandono a que foram sujeitos, à mercê do desgaste desmerecido, sem a possibilidade de poderem ser qualquer outra coisa que lhes mantivesse a dignidade e a permanência na vida dos que são da terra. Vê-los assim, expostos na sua decadência, faz-me sentir uma espécie de mágoa, como se assistisse à destruição lenta do passado. Os barcos que albergaram tantas alegrias e risos estão, agora, à disposição daquilo que o tempo lhes quiser dar, à erosão dos dias que se lhes somam.

Ainda assim, há um quê de poesia neste local. Há uma espécie de passado que entoa nos ouvidos com som de mar.  Quando aqui venho ainda me vejo de novo pequenina a olhar o mar com o meu pai por perto, a ouvir os sons dos outros em decibéis elevados. Ainda sinto os atropelos das recordações que os colocam em retratos do meu imaginário. São pedaços de ferro e madeira, é certo, mas encerram histórias e um legado de quem os conheceu a desbravar marés.

Gostaria infinitamente mais de os saber a ter outras utilizações ou a ser demolidos sem afronta àquilo que foram ou ao ambiente. Assim permanecidos, nas rugas da sua história, resta-me homenageá-los da melhor forma que sei dando novas palavras ao seu abandono, reescrevendo-lhes a história, dedicando-lhes palavras que lhes devolvam a honra.

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